Basta tirarmos um pouco a paixão político-partidária de lado para entendermos que todo governo tem acertos e erros. Os apaixonados, sejam eles destros ou canhotos, tendem a achar que o seu governante predileto só comete acertos, e que o adversário/inimigo vai em sentido oposto: só incorre em erros e absurdos. Não enxergam um palmo além do que os antolhos políticos os permitem ver. São bitolados torcedores, que muito pouco, ou nada, contribuem para o processo democrático e crescimento do país, estado ou município. Transformam a democracia em uma rinha de baixíssimo gosto e seguem bradando suas ignorâncias por onde passam.
Se quando isso fica somente entre os apaixonados cabos eleitorais já é ruim, o que dizer quando essa peleja chega aos gabinetes? Quando os líderes se comportam como militantes, seja de forma intencional ou não, alimentam de forma covarde esse maniqueísmo tão nocivo à democracia. E assim, ao final de cada pleito eleitoral, um candidato vence a eleição, mas na verdade todos perdem. Adubam a polarização e ajudam a transformar o Brasil no país do ódio.
Em um passado não muito distante, o então presidente Lula, que, assim como todos os governos, cometia erros e acertos, passou todos os seus oito anos de mandato se comparando ao seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. A cada feito, seja na área econômica ou social, fazia questão de comparar-se com o FHC. Parecia até patológico. Era difícil um pronunciamento do presidente em que ele não mirasse o retrovisor e se comparasse com FHC. E isso inegavelmente aumentou o ódio no país, se exacerbando de tal forma que a eleição de 2018 entre Dilma Rousseff e Aécio Neves mais parecia uma guerra. No final, venceu a petista, mas como dito acima, perdemos todos. Perdeu o país e a democracia.
É preciso registrar a elegância com que o Fernando Henrique Cardoso absorveu as comparações e críticas proferidas por Luiz Inácio durante todo o seu mandato de presidente. FHC sempre se manteve calado, não as respondeu. Deixou que o tempo e a história o fizessem. Isso é a verdadeira postura de um líder.
Trazendo a discussão para o nosso quintal, o que estamos vendo de forma clara e cristalina, nesse começo de administração do Bocalom, é uma reprodução mambembe do que assistimos durante os oito anos do governo de Luiz Inácio. Uma rinha sem o menor sentido entre o atual gestor e sua antecessora. Mas com uma diferença bastante significativa: Tião Bocalom tem se comportado como Lula, mas Socorro Neri não tem se comportado como o Fernando Henrique.
A cada feito positivo do Bocalom, o que, diga-se de passagem, são raríssimos, seus asseclas de plantão correm logo para comparar com a gestão passada. E quando recebem alguma crítica, como no caso da vacinação, por exemplo, tendem a culpar a administração de Neri, como fez na última entrevista o secretário de Saúde municipal, Frank Lima. Se deixam de pagar dois meses às empresas responsáveis pela limpeza da cidade e com isso os garis ficam sem seus salários, culpam a gestão anterior. Não conseguem dar uma única entrevista sem citar a ex-prefeita. Lamentável postura.
Mas se Bocalom e sua trupe estão agindo como o ex-presidente Lula, está faltando à ex-prefeita Socorro Neri se comportar como Fernando Henrique Cardoso: responder às críticas da atual gestão com a elegância do seu silêncio e deixar que o tempo e a história se encarreguem de lhe fazer justiça.




















