ELEIÇÕES 2022

As muitas faces do ‘homem do tempo’: Friale pode ter candidatura indeferida por contradições em identificação civil


Não há morador de Rio Branco que não conheça Davi Friale. Com seu jeito introvertido, é facilmente visto nas ruas a pé como quem parece apenas querer analisar “o movimento”. Foi com o avanço da internet e das redes sociais que Friale se tornou a figura conhecida que temos hoje, quando começou a divulgar os resultados de um de seus principais hobbies: acompanhar os movimentos climáticos. Logo, foi visto como uma espécie de “homem do tempo” do Acre, muitas vezes erroneamente chamado de meteorologista.

O “mago”, como também é conhecido, logo recebeu convites para publicidades e montou seu próprio site, O Tempo Aqui. Porém, decidiu em 2022, se candidatar a deputado — prática não incomum para quem se considera conhecido do povo. Mas essa candidatura expôs um grande mistério a respeito da vida pessoal do pesquisador meteorológico: sua identidade.

Friale se candidatou pelo PMN com o nome de Davi Friale Assis Melo, nascido em 1951 na cidade de Barreiros, em Pernambuco, a 102 km da capital Recife. No entanto, ao ter seu registro analisado, o procurador eleitoral Fernando José Piazenski encontrou alguns desencontros de informações em relação a sua identificação civil.

A primeira é que o documento apresentado por Friale no registro de candidatura foi expedido em março de 2022 como primeira via e seu CPF recebeu inscrição somente no dia 4 de agosto deste ano — há pouco mais de um mês. Os fatos, logicamente, são incomuns para alguém de 51 anos de idade.

O procurador também constatou que Friale fez seu alistamento eleitoral no dia 29 de março, um dia antes de se filiar ao Partido da Mobilização Nacional (PMN). Em sites de buscas como o Google, por exemplo, os únicos resultados para o nome Davi Friale Assis Lima são referentes à sua candidatura.

Um outro mistério ainda paira no ar: no Acre, Friale já deu entrevistas sobre sua vida pessoal e em algumas delas se apresentou com o nome de Davi Fiala Cheremeta, natural de Recife. Em outra ocasião, durante uma conversa com o jornal ac24Horas em 2015, se apresentou como Davi Friale Setúbal.

Segundo a reportagem citada, Friale trabalhava para o Banco do Brasil em Recife e pediu transferência para o Acre em 1988. O pedido foi deferido e ele recebeu a missão de gerenciar a única agência do banco em Xapuri. No entanto, pediu demissão em 1992 alegando que “não tinha mais o que crescer no órgão e amava ser livre”. O ponto dessa informação, é que de acordo com o registro de candidatura, Friale teria apenas 17 anos em 1988, idade incompatível com o cargo de bancário.

A inconsistência nas informações pode levar à impugnação de sua candidatura a deputado estadual. Pelas redes sociais, Friale se manifestou divulgando uma nota, leia na íntegra:

— “Não tinha documento, tirei meu documento apenas neste ano. Pois tinha timidez de ir em cartório, tomei coragem de buscá-lo, porque sei que é um direito meu como cidadão nato.

A vida no anonimato é muito ruim, tive muitas perdas, me matriculei em vários cursos universitários, mas quando pediam meus documentos eu abandonava.

Meu site ainda é em nome de terceiros, já cheguei a ter prejuízos de mais de 50 mil reais , pois a pessoa esperou acumular um valor em dinheiro e sumiu.

Mas sempre é tempo de recomeçar, e estou recomeçando com minha candidatura de Deputado Estadual com o número .

Pretendo construir uma Família e passar o meu site para meu nome, vou realizar mídias para empresas .

Se eleito, meu principal projeto é ajudar pessoas em situação de rua, pessoas que moram em seringas e pessoas sem documento.

Estarei sempre a disposição para maiores esclarecimentos.”

*Matéria escrita por Anderson Siqueira, tendo como fonte informações divulgadas por Altino Machado

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André Diogo